Seguidores

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Auta de Souza

Por Ana Laudelina Ferreira
Acaba de ser publicado nos Estados Unidos livro de crítica literária feminista que traz Auta de Souza como uma das três  poetas estudadas e de efetiva importância para a revisão de cânones na perspectiva de uma poesia afro-americana.

Título da obra: "Between the Lines : Literary Transnationalism and African American Poetics"
Autora: Monique-Adelle Callahan
Editora: Oxford University Press, 2011.

Descrição (segundo informações postadas na internet pela editora):
"Between the Lines" examina o papel de três poetas de ascendência africana - Frances Harper, Cristina Ayala e Auta de Souza - na formação da história literária das Américas. Como está para ser lançado neste mês de abril, o livro ainda não está disponível em livrarias eletrônicas norte-americanas, mas já pode ser encomendado em algumas.
O livro de Callahan vem em boa hora, considerando que a minha tese também está sendo publicada neste semestre, pela Editora da Física: "Auta, a noiva do verso".
Por conta dessa minha tese de doutorado sobre Auta de Souza, fui citada no livro como pesquisadora  que  iniciou a "necessária tarefa" de releitura crítica do trabalho de Auta reposicionando-a à luz do cânone publicada este semestre pela Editora da Física: “Auta de Souza: a noiva do verso”. O lançamento acontecerá em evento em comemoração dos 110 anos da primeira publicação do livro “Horto”, de Auta, onde pretendo trazer à discussão pública a abordagem de Callahan em “Between the Lines” no que concerne a Auta de Souza”.
Estou recebendo tudo isso com muita alegria, e há tempos penso que cedo ou tarde Auta de Souza acabaria sendo internacionalizada, pelos méritos de sua história e de sua poesia. O livro de Callahan parece ser um passo neste sentido. Ainda não o li, apenas vi algumas páginas disponíveis na internet, que deixaram o gostinho de 'quero mais'.

Enviado por: Ana Laudelina Ferreira Gomes/Profa. do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte-Natal-Brasil.
10 de abril de 2011.

O Jornal de Artes parabeniza a professora/pesquisadora Ana Laudelina, a quem o Rio Grande do Norte deve, enfim, esse honroso reconhecimento da importância de Auta de Souza. Foi certamente a sua pesquisa que possibilitou a "descoberta" da poetisa potiguar por uma pesquisadora de outro país, Monique-Adelle Callahan. Não é sempre que algo assim acontece.
Ana Laudelina merece, no mínimo, o título de Cidadã Potiguar, por este belo serviço prestado à história cultural do Rio Grande do Norte.  

quinta-feira, 7 de abril de 2011


A LUA?

Em uma esquina pequena, bem próxima a estrela maior estava a lua vendendo em um terçal de emoções; prendas de luz para todos os anjos que ali passavam voando em busca do amor. Uns compraram promessas, outros desilusões, carinhos, olhares, juras infindas. Uns quiseram dúvidas, outros também e assim como fitinhas do Senhor do Bonfim iam escorrendo entre os verdes olhos daquela lua que vestida estava. Um negro fiapo da noite, sentado ao meio fio da nuvem, pergunta se aquela lua não gostava de amar, pois , com nenhuma prenda ficara. Ela, a lua, fitou com as esmeraldas flamejantes a noite fria que logo com aquele olhar clareada estava e falou que a lua era dos namorados, mas ele... e logo que falou ELE foi se despindo daquela lua encantadora e se tornou em um belo príncipe que sorridente falou que destribuia encantos e sonhos, canções de despertar e que não era o cupido da noite, mas a essência de um olhar. Colocou a sua fantasia sob o braço e logo um chão de estrelas se formou, serio e seguro do que fizera saiu a falsa lua naquele chão estelar a deslizar.

sábado, 5 de março de 2011

O PÁSSARO CINZA



O pássaro cor de chumbo descansava no fio elétrico. O tempo nublado visto pela janela do primeiro andar caracterizava uma cena parisiense.
                                  -Vista em cartão postal?

Não sei. A paisagem expunha telhados e copas de mangueiras frondosas, pedaços de fachadas e partes de quintais. Se escutava ao longe gritos alegres de crianças a brincar nas poças de água das ruas desertas provocada pela chuva que banhava aquela pequena cidade interiorana e cantava a escorrer nas biqueiras das casas.

                                 - Você vê o que fala?

Vejo o pássaro cor de chumbo que empoleirado no fio olha para mim. Escuto e imagino na inercia do meu abandono os sons que da rua vem em sua intensidade e recodifico visualmente e que agora acabo de falar. Acredito que nesse momento o senhor do tempo enxuga as bordas da mesa de jantar com a sua toalha de linho azul fazendo escorrer até nós em forma de chuva o que bebido estava sendo, em uma ceia, banquete ou só degustava o precioso liquido da vida..

                                   - O que?

Meio surreal o que falo, mas em muitas das vezes pensamos assim, só que não expomos porque soaria estranho, assim como soou para você agora.

                                   - Tá.


-Vejo um gato cinza no fio.

O pássaro!




Juscio Marcelino
(sábado), 05 de março de 2011


domingo, 26 de dezembro de 2010

OLHANDO UM NATAL

Mira os olhos de quem tem fome, sede de comida, uma imensa e insaciável vontade de apalpar labialmente, mesmo que de relance o que você despreza. Senta ao lado de quem não sabe o que vai ser a sua próxima refeição, o seu acalanto, a sua tenra tranquilidade interior. Respiras só por um segundo o ar seco e incerto de um ninguém social, a sombra das sobras, daquele que caminha sempre em busca do pão.
Tentas imaginar você nessa situação.
-Eu?
Cruzamos os braços para os descasos sociais, as injustas desigualdades, diante dos aproveitadores, onde até nós mesmos nos aproveitamos. Cruzamos os braços para a corrupção social.
-Vem cá, moço. O senhor tá pensando ser candidato nas próximas eleições? Se tiver, pode ir mudando o discurso porque essa historia de ganhar voto à custa da miséria do povo não cola mais não. Pode ir tirando o cavalinho da chuva. O governo moço passa o ano inteiro sustentando nós com o bolsa família e no final do ano um bando de gente fazem campanha pra conseguir alimento pra nós. Tem muitos empresários que para não pagar o que eles têm de direito ao governo também entram nessa de nos dar as coisas. Digo-lhe mais seu moço, tem gente por aí que recebe tanta coisa que chega até a abrir uma bodega na janela da sala. E ainda lhe digo um tiquinho mais; nós pobres ainda vamos ter direito a décimo terceiro e esse dinheirinho vou deixar pra ir com os meus para Juazeiro visitar o meu Padrinho Padre Cícero. Tem muitos como o senhor, com esse discursinho fraco e ultrapassado passando para o lado de cá, ou pro lado de cá. Os que ficam no meio como o senhor só pena e nada consegue. Nós ganha casa, terreno, comer, médico, tudo de graça e ainda por cima o nosso natal e uma lordesa só. Nós vivemos de perna pro ar, no bem bom, sem trabalhar. Trabalho deixa pra esses bestas que se matam pra ter as coisas, se endividam, cheios de promissórias e nós só no bom. Vou lhe dizer mais uma coisa seu moço; nessa ultima campanha eu ganhei onze sestas básicas, construíram esses dois quartos novos na minha casa e uma caixa de roupa usada de uma madame. Vendi todinho como se fosse nova aqui mesmo e ganhei uma nota preta. Aquela bodega no inicio da ladeira é do meu filho que é sócio comigo. Entrei com a mercadoria que foram as sestas básicas e ele com o ponto e administra. Tudo o que recebo, vou ganhando mando para lá. Pelo que to vendo, o moço não tem onde passar o natal, não é isso mesmo? Pode ficar aqui em casa que daqui a pouco vem um povo lorde distribuindo do bom e do melhor e nós só passando bem. Eles cozinham para nós. No ano passado até vinho eles trouxeram.
-To besta.
- Agora o moço falou uma grande verdade. É um besta se continuar remando contra a maré. Moço, aí onde o senhor tá não tem mais peixe, essa maré secou. O negocio é esse rio de águas correntes. Não é límpida eu sei, mas que corre água, isso corre.
- E onde está o povo pobre e carente que precisam de ajuda, de amparo...
-Aqui, seu moço! Ta se fazendo de doido ou é cego. Tudo bem, eu já compreendi. O moço é daqueles burros empancados. Então fique aí com a sua conversa besta e olhando o natal dos outros que eu vou cuidar de ficar com cara de carente para poder receber mais que o ano passado. Feliz natal.

Juscio Marcelino

20 de dezembro de 2010



sábado, 4 de dezembro de 2010

O MONSTRO DE CADA UM

 


O carrossel multicor contrastava no ambiente ocre acinzentado daquela pequena cidade. A velocidade de um furacão redemoinhava as fitas brilhantes e coloridas que ornavam o lúdico brinquedo em ação e aqueles movimentos e entusiasmo de tudo o que aos olhos fascinavam trazia cada vez mais a certeza que aquele momento era surreal, que ele não fazia parte daquela cidade do interior. O mundo inteiro não cabia de tanta felicidade naquela sinfonia de alegria e prazer entre horizontais e verticais, cadeiras, rodas e cavalinhos, gritos, risadas e movimentos. Girava o mundo e o meu coração.
O olhar inocente e doce viajava entre imagens encantadoras e lágrimas, onde a cada uma que aleatoriamente escorria no pequeno rosto iluminado pelas luzes que ornavam aquele mundo mágico cravavam a certeza de que tudo aquilo não era seu, que todo aquele universo eram para os escolhidos em um sorteio invisível. As mãozinhas fixas e fortemente atracadas nos varões de ferro que separava essas duas realidades limitavam os sonhos, desejos e anseios daquela criança de calção surrado e pés no chão.
E o monstro da luz de fogo com o seu poder de bruxo do cifrão faz o pequeno coração sentir o peso da perda que brutalmente soca o seu peito lhe fazendo chorar sem realmente saber o que significava toda aquela transformação. Viu alguns de seus amigos da rua onde morava enfrentando aqueles monstros em giros alucinantes e sempre vitoriosos desciam com cara de satisfação na certeza de novas batalhas e vitorias. Como uma fração de segundos a mente fresca e infantil abre um leque de lembranças recheadas de quintais, fruteiras, balanços de pau e corda, gangorras na raiz de um antigo cajueiro e do escorrego nas folhas de um coqueiro anão. O cheiro da comida caseira e das marmeladas feitas no quintal da velha Lindinha e a sua turma a correr e brincar despreocupadamente naquelas lembranças. Em suas recordações ele não estava só, mas com todos os seus amigos que naquele momento lutavam animadamente com os monstros do prazer no outro lado, tão perto, mas tão distante.
-Porque eu não posso?
Um forte soluço lhe tomou o corpo e quase sem controle ele se viu tão pequeno, sem poder, sem liberdade. Era o invisível mostro da vida de cada um ser humano se apresentando ao pequeno que acabara de nascer para a realidade.
Juscio Marcelino de Oliveira

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ORGASMO



Uma corrente grossa e forte descia do imenso céu azul. Eram elos enormes e retorcidos na suavidade de um cetim. O vento brumal que vinha do sul como um sopro carinhoso do deus do tempo embalava no balanço e no silvo aquele enorme pendão como um capinzal em brisa de verão. Alguns pingos cintilantes perolal desprendiam-se aladamente daquela bela e harmoniosa escultura azul. Os raios ofuscantes e lacivos do sol proporcionavam um brilho fugaz que penetrava cravejantemente na água marinha unindo pingos e gotas, céu e mar.
Por um longo tempo o meu relógio não marcou tempo algum. O período que compenetrado estava admirando aquele espaço como uma fotografia viva passou feito andorinhas em revoada, mas calmo, pouco espesso e assim distraído fiquei. Se não o rasgar de uma gaivota em disputa de território, a minha viajem alucinógena reinaria em terras de ninguém por mais um bom e interminável tempo. A cabeça aos poucos ia ficando proporcionalmente reações em comando aos seus, ativando todas as áreas, coordenando harmoniosamente o despertar de um momento mágico e feliz.
A nostalgia me abraçava carinhosamente reportando-me aos pingos alados e correntes em cetim azul. O embalo, o abraço, aconchego do céu e o mar como um real casamento de ilusões pairava nas minhas células, em todo o meu ser.
As forças ainda não me tomavam por inteiro e despreocupadamente me deixava relaxar na certeza de querer perenemente ficar, de está ainda mais um pouco naquela ilusão celestial, naquela farra mental, naquele embalo de amor. A minha frágil situação me permitia fusões de emoção, provocava os sentimentos, sentidos e eclosões de um salgado líquido sutilmente febril que banhava deliberadamente a inerte porta da ilusão. Sentindo o vento a bater, a areia fina a acariciar era o sinal do final daquele momento impar e que certamente não se repetiria jamais.